Travessa do Abarracamento de Peniche 15

Sustentabilidade

DESIGNAÇÃO DA INTERVENÇÃO URBANA:
Nome: Travessa do Abarracamento de Peniche 15
Localização: Travessa do Abarracamento de Peniche, 15, Lisboa
Promotor/dono de obra: Filipe Mónica e Fátima Belo
Arquiteto: Filipe Mónica
Construtor: Monterg
Data do fim de construção: 01/01/2017

ENTIDADE QUE APRESENTA A CANDIDATURA: Empresa:
Morada:
Localidade:
Código Postal:
Telefone: 911111111
Site:
APRESENTAÇÃO BREVE DA INTERVENÇÃO URBANA:

O edifício com o nº15 da Travessa do Abarracamento de Peniche, em Lisboa,  situa-se no coração da cidade, junto ao jardim do Príncipe Real, no topo da encosta voltada a sul, possuindo como tal uma situação impar quanto á sua localização, exposição solar e vistas sobre a colina do Bairro Alto e o rio Tejo. A este factor acresce a singular implantação do logradouro, que se desenvolve a sul do edifício em vários níveis de jardim até à rua Eduardo Coelho.

Trata-se de um edifício habitacional, inserido na frente urbana da rua. Não nos sendo hoje possível aferir com rigor a data da sua construção, parece evidente, pelas suas características arquitectónicas e estruturais, que se enquadra na tipologia construtiva tardo-pombalina da segunda metade do século XIX.

Já no século XX, Na década de 50, o prédio é alvo de uma intervenção de grandes proporções conduzidas pelo destacado arquitecto Raul Chorão Ramalho (1914-2002). Esta intervenção, contemporânea de obras notáveis do mesmo autor como o Centro Comercial do Restelo e a Cervejaria Trindade, ambos em Lisboa, traduz-se numa acentuada operação estrutural e tipológica, que viria a transformar fortemente todo o edifício, convertendo-o numa moradia unifamiliar. São então substituídos e introduzidos importantes elementos, como um novo núcleo de escadas, varandas e alpendres, anexos e garagem, todos eles dotados do vocabulário plástico característico das primeiras obras do autor, e que introduzem no edifício uma afirmativa e orgulhosa modernidade. 

É genericamente sobre esta realidade que tem lugar a corrente intervenção, assumindo-se a presente obra, hoje, como a terceira parte da biografia deste edifício, a qual respeita e dá continuidade.

Mantendo o uso habitacional, foram agora cuidadosamente desenhadas cinco fracções autónomas com diferentes tipologias, e configurados novos espaços comuns, dos quais se destacam o túnel de ligação entre ambas as ruas, a norte e a sul do lote, e a construção de uma nova garagem. Foram igualmente inseridas no conjunto todas as mais valias funcionais, infra-estruturais e energéticas hoje incontornáveis.

Assente numa premissa de rigor - de desenho, de detalhe e de construção - toda a corrente operação assenta numa princípio fundamental: a concretização arquitectónica de um objecto único, inteiro e coeso, no qual os vários tempos, passado e presente, se fundem de forma natural, em harmonia com as mais relevantes características ditadas por um renovado programa e um extraordinário lugar.

MOTIVO DA CANDIDATURA:

Em 2010 o prédio situado no nº15 da Travessa do Abarracamento de Peniche, em Lisboa, encontrava-se desocupado. À porta uma placa identificava o último residente, que pouco antes deixara o edifício sem grandes marcas de ocupação. Foi assim possível vivenciar com clareza aquilo que foi a matriz da sua génese novecentista, e, sobretudo, a erudita transformação em moradia unifamiliar que havia sido conduzida nos anos 50 do século passado pelo notável arquitecto Raul Chorão Ramalho.

Chorão Ramalho efectuou no edifício uma intervenção afirmativa. Partindo de uma qualificada estrutura arquitectónica, realizou uma transformação livre, sem concessões ao legado formal presente na base que encontrou. Numa atitude claramente moderna, operou de forma crítica sobre o existente, sabendo fundir os dois tempos num único inteiro e coeso.

Esta atitude paradigmática perante o património, que identificamos no legado de Chorão Ramalho, foi central na presente reabilitação. A escala da intervenção, a alteração programática, e a constatação da qualidade dos antecedentes, tornaram claro o difícil desafio desta operação. Evitando posturas extremas, e porventura mais óbvias, de intervenção por mimesis ou contraste, efectuou-se uma leitura crítica e um trabalho minucioso com vista à convivência, num todo, dos vários tempos arquitectónicos: tardo-pombalino, moderno e contemporâneo.

Esta é a principal afirmação cultural que motiva a presente candidatura. 

Interessa-nos na reabilitação urbana a possibilidade de transformação da história. É neste caso muito nítida a sobreposição de camadas que a excelência das duas intervenções anteriores proporcionou, às quais foi natural dar continuidade. Trabalhámos os tempos anteriores e acrescentámos outro, interessando-nos que todos eles fossem transportados para o presente. Não nos interessou um olhar distante para o passado, como se dele não fossemos parte, mas sim a ideia de fusão dos vários tempos e a concretização espacial e arquitectónica dessa união. 

Igualmente importante na motivação da candidatura é o modelo de toda a operação urbanística, assente numa operação privada – familiar – no qual foram aliadas as preocupações económicas e culturais, demonstrando a viabilidade de uma íntima fusão entre as duas. A arquitectura, não como um simples valor acrescido, mas como um valor cultural fundacional na transformação reabilitação da cidade.

Não menos importante foi a opção pela diversidade de tipologias, destinadas ao aluguer de longa duração, contribuindo para a fixação de população residente, em resistência e contraciclo com a fragmentação patrimonial e social que o contexto económico e o fenómeno turístico têm vindo a impor ao centro histórico da cidade de Lisboa.