Igreja de Nossa Senhora do Loreto

Cidade de Lisboa

DESIGNAÇÃO DA INTERVENÇÃO URBANA:
Nome: Igreja de Nossa Senhora do Loreto
Localização: Largo do Chiado 16, Lisboa
Promotor/dono de obra: Fábrica da Igreja Italiana de Nossa Senhora do Loreto
Arquiteto: Luís Rebelo de Andrade
Construtor: Teixeira Duarte – Engenharia e Construções, S.A.
Data do fim de construção: 21/12/2018

ENTIDADE QUE APRESENTA A CANDIDATURA: Empresa: Atelier Rebelo de Andrade
Morada: Rua da Prata, 214 - 1º
Localidade: Lisboa
Código Postal: 1100-422
Telefone: 219363435
Site: https://www.rebelodeandrade.com/
APRESENTAÇÃO BREVE DA INTERVENÇÃO URBANA:

A igreja do Loreto transcende generosamente o propósito pelo qual foi edificada. De local de culto para a comunidade italiana, passa a desempenhar um papel social importantíssimo na cidade de Lisboa, torna-se um edifício emblemático na zona que ocupa e, graças ao seu acervo histórico e artístico, permite compreender de forma mais clara e abrangente a cidade de Lisboa, que a acolheu e acarinhou de 1518 até os dias de hoje. O trabalho de restauro e reabilitação compreendeu diversas etapas, tendo sido iniciado com o edifício contíguo à residência dos padres, no número 8 da Rua da Misericórdia, em 2001. Embora de grande importância para as finanças da igreja da Nossa Senhora do Loreto, pois permitiu acrescentar pisos ao edifício e rentabilizá-los para benefício dos cofres da igreja, o projecto em apreço não cabe no âmbito destes textos e da finalidade a que servem. Um dos grandes problemas do edifício da igreja era a cobertura. Em 2016, a cobertura foi avaliada quanto a necessidades e deficiências e um plano de intervenção foi gizado. Como consequência da degradação do telhado, a água e humidade eram as principais causas dos estragos no edifício e no seu recheio. As infiltrações levavam a desprendimentos e quedas de reboco e argamassas e as reparações pontuais com rebocos de base cimentícia, além de serem meros remendos, tinha ainda o condão de enfraquecer a estrutura subjacente, pois não se ligam à base que as recebe. A humidade generalizada nas paredes e tectos levava à formação de manchas, eflorescências e empolamentos e subsequente degradação dos rebocos. As madeiras, principalmente na zona de apoio às asnas foram apodrecendo e acolhendo fungos. Os elementos metálicos estavam corroídos e o óxido de ferro e o aumento de volumetria que este origina provocava tensões nos rebocos e alvenarias, causando empolamentos, fissuras e fendilhação. Os elementos de pedra, degradados devido à corrosão de elementos metálicos no seu interior, acabavam por fissurar e por comprometer a integridade estrutural do edifício. Nas paredes de alvenaria cresciam herbáceas cujas raízes provocavam a degradação dos materiais e criavam rotas de entrada de água, acentuando os efeitos desta. Nas paredes exteriores, a pintura descascava por ter sido aplicada inadequadamente ou devido à presença de rebocos insuficientemente permeáveis. As caixilharias de madeira da nave de igreja encontravam-se parcialmente apodrecidas e permitiam a entrada de água para o interior da igreja e a subsequente degradação dos revestimentos e acabamentos. O piso de esteira, em tábuas de madeira, estava desgastado, consequência da sua excessiva e inadequada utilização. Não houve necessidade de modificar a estrutura do edifício ou o uso da mesma. As intervenções levadas a cabo foram sempre de reabilitação e de conservação. Após reparada a cobertura e os danos dela decorrentes, pintaram-se as fachadas com uma cor mais consentânea com a história de Lisboa, as portas e os elementos em ferro, limparam-se as pedras e retiraram-se os elementos invasores do edifício, como líquenes, caruncho e herbáceas. Os interiores foram submetidos a uma criteriosa manutenção e os elementos artísticos foram restaurados por equipas especializadas. Foi um laborioso e longo empreendimento, dadas as características do edifício e a especificidade dos materiais. Alguns trabalhos, nomeadamente os do restauro da pintura do tecto, foram efectuados a dezoito metros de altura. Tudo isso foi sendo feito sem que a igreja fechasse ao público ou aos fiéis. No que concerne a iluminação, decidiu-se tapar os janelões do lado da fachada da Rua da Misericórdia com sunscreens para evitar a entrada de luz natural e assim iniciar o restabelecimento de uma equilíbrio entre a luz recebida por cada vão. Instalaram-se fitas de LED para dotar todos os vãos com uma quantidade equivalente de luz e reparar a forma coxa como esta se acabava por reflectir na nave central. O controlo da entrada de luz natural serviu ainda para minimizar os danos causados pela luz de espectro solar nas pinturas e restantes obras de arte da igreja. Na nave central, foi desenhada uma iluminação com estrutura elíptica, com sessenta projectores direccionais, que, além de não perturbar a visão daquele que é, provavelmente, o componente artístico de maior relevância da igreja, i.e., a pintura do tecto, da autoria de Pedro Alexandrino de Carvalho, tem o condão de a reforçar, pois desenha uma moldura que naturalmente acentua, por contraste, aquilo que lhe cabe em interior. Optou-se ainda por pontuar de luz as obras de arte e não os elementos arquitectónicos, acreditando que o realce dado aos primeiros acaba por beneficiar a contemplação dos segundos.

MOTIVO DA CANDIDATURA:

O âmbito e propósito do Prémio Nacional de Reabilitação Urbana são ambos notáveis. Numa época em que a maior parte do nosso contexto civilizacional se rege pela função da descartabilidade e pela égide do “novo”, a existência de uma força motriz que premeia o movimento inverso e introduz grãos de areia na engrenagem desta subtil forma de ditadura conceptual é uma fonte de necessária esperança e um imperativo moral. A igreja da Nossa Senhora do Loreto, pelo que simboliza enquanto património cultural, histórico, social e arquitectónico enquadra-se perfeitamente, pensamos, nos objectivos e visão pelos quais o prémio se norteia. É um bem de inquiestionável valor cultural, embora não se possa resumir somente a isso, tendo em conta as suas dimensões religiosas e sociais. É um equipamento de inegável utilidade pública, uma peculiar forma de encontro com um passado vivo e definidor do presente que vivemos e do futuro que legamos. A história de Portugal e da civilização judaico-cristã não pode ser compreendida sem um enquadramento adequado do papel das igrejas na vida das comunidades. A igreja, além do carácter religioso de que é portadora e guardiã, é um elemento fundamental de coesão social, cultural e cívica. Preservar esse legado centenário, recorrendo à intervenção das melhores equipas, ao uso das práticas mais adequadas, ao recurso a técnicas tão inovadoras como respeitosas das tradições que reinventam para a contemporaneidade (como é o caso da estrutura elíptica de iluminação, herdeira conceptual dos candelabros de ferro para lamparinas de azeite) é uma tarefa e um labor que dignificam não somente a arquitectura ou a paisagem em que se insere, mas toda uma história e um passado que nos permitiram e permitem, todos os dias, compreender melhor aquilo que somos e aquilo que queremos ser e o que optamos por deixar às gerações vindouras.