Cardiff 28

Residencial

DESIGNAÇÃO DA INTERVENÇÃO URBANA:
Nome: Cardiff 28
Localização: Rua Cidade de Cardiff 28 Lisboa
Promotor/dono de obra: INPUT / Giancarlo Bozza
Arquiteto: EXTRASTUDIO
Construtor: Comprojecto - projectos e construções lda
Data do fim de construção: 31/07/2021

ENTIDADE QUE APRESENTA A CANDIDATURA: Empresa: Extrastudio - arquitectura, urbanismo e design lda
Morada: Rua Praia de Pedrouços, 110 - 1.o R
Localidade: Lisboa
Código Postal: 1400-282
Telefone: 213214797
Site: http://www.extrastudio.pt
APRESENTAÇÃO BREVE DA INTERVENÇÃO URBANA:

Esta obra de reabilitação incidiu sobre um edifício de “gaioleiro” com 5 pisos, construído em Lisboa, no Bairro de Inglaterra, na década de 20 do século passado. Era ocupado originalmente com uma padaria, no piso térreo, com as áreas de produção no logradouro. Tinha um único apartamento por piso, com as cozinhas e as instalações sanitárias a tardoz, orientadas para uma varanda metálica. O imóvel estava em avançado estado de ruína, com o interior, a cobertura, e parte da fachada destruídas na sequência de um incêndio. Todo o projecto foi realizado sem acesso ao interior do edifício e a obra iniciou-se com uma delicada operação de demolição. Desde início que o projecto teve como pressupostos a manutenção da fachada existente; a ampliação da área de cada piso, com uma expansão a tardoz; a alteração do número de apartamentos por piso; a construção de uma nova estrutura em betão armado, capaz de suportar requisitos sísmicos, de segurança contra incêndios e proporcionar novas comunicações verticais. A nova estrutura, em betão armado, é composta por uma laje maciça suportada apenas pelas paredes periféricas existentes, reforçadas por uma gunitagem, e pelos núcleos de comunicações verticais. Sem outros elementos interiores, esta simplicidade estrutural foi fundamental para adaptar o edifício à ocupação de um, dois ou três apartamentos por piso. As habitações recuperam a vivência do edifício original. É mantido o pé-direito, são aplicados pavimentos em pinho de Riga e revestimentos em mármore ou azulejo. A tardoz são reconstruídas as varandas metálicas, ainda que adaptadas à nova geometria da ampliação. Na fachada principal, são ampliadas as varandas existentes em pedra até aos vãos mais periféricos, recorrendo-se às técnicas aí empregues, reproduzindo-se os cachorros em Ataíja e as guardas em ferro forjado. Os vãos de madeira são repostos conforme os originais e encerrados com portadas. Para o exterior, foi escolhido um azulejo Viúva Lamego madrepérola, em permanente metamorfose em função da exposição solar ou da incidência da sombra. Tal como os revestimento interiores, em pedra, em madeira, ou em estuque veneziano, pretende-se que o edifício esteja em constante transformação, quer por acção da luz, que incide de forma distinta nestas superfícies nas diferentes horas do dia, quer por acção do tempo, que vai aproximando os novos materiais aos revestimentos existentes. O projecto terá cumprido o seu objectivo se um dia alguém entrar no edifício e concluir que aquele espaço sempre ali esteve, ainda que, aparentemente, alguma daquela matéria seja nova.

MOTIVO DA CANDIDATURA:

As boas práticas de intervenção no património são, ainda hoje, definidas pelos princípios da Carta de Veneza, que decorreu do 2.º Congresso Internacional de Arquitectos e Técnicos de Monumentos, realizado em Maio de 1964. Apresenta a forma de um regulamento, com 16 artigos, e afirma o monumento histórico como testemunho da civilização, alargando este conceito às obras mais modestas que adquiriram com o tempo um significado cultural. Acabou por elevar a monumento grande parte dos centros históricos das cidades, trazendo conteúdo patrimonial aos edifícios que compõem o contínuo urbano e não apenas aos edifícios de carácter excepcional. Fomentou a utilização ou adaptação destes edifícios a novos usos, ainda que as novas intervenções tivessem que ser manifestamente identificáveis na sua relação com o edifício existente. A reabilitação do edifício no número 28 da Rua Cidade de Cardiff, em Lisboa, foi um desafio, face aos princípios definidos pela Carta de Veneza. Por um lado, seria evidente que o edifício, em ruína, teria algum valor patrimonial enquanto testemunho da expansão da cidade de Lisboa com prédios de “gaioleiros”. Ainda que não tivesse um carácter artístico excepcional, este edifício estaria inserido num tecido urbano completamente coerente com esta característica construtiva. Por outro lado, o seu avançado estado de degradação e a necessidade de adaptação a novas tipologias habitacionais, exigências técnicas e estruturais contemporâneas, colocaram de lado qualquer intervenção conservadora, capaz de reproduzir a antiga estrutura resistente em madeira e alvenaria. Assumindo que a fachada seria o testemunho de um tempo e que teria significado cultural, o seu interior foi reconstruído com recurso a uma nova estrutura, mas desenhando espaços que decorrem da métrica do alçado antigo e que conformam, no seu tardoz, novas varandas em ferro que dialogam com as antigas marquises dos prédios contíguos. Voltou a empregar-se os acabamentos utilizados originalmente, de forma a que estas superfícies pudessem envelhecer e recuperar a patine que o edifício eventualmente já teve, com o objectivo de confundir a nova intervenção com a construção existente, em clara subversão à Carta de Atenas. Não havendo um valor artístico evidente, esta obra é a resposta a uma questão comum a muitos arquitectos e promotores: como se reabilita o edificado corrente, salvaguardando o seu valor patrimonial e conciliando as novas utilizações?