Bacharéis Charming House

Turístico

DESIGNAÇÃO DA INTERVENÇÃO URBANA:
Nome: Bacharéis Charming House
Localização: Rua de São Julião, 10 - 3080-077 Figueira da Foz
Promotor/dono de obra: Balsas Abreu - Alojamento Turístico, Lda.
Arquiteto: Alane de Holanda Nunes Maia
Construtor: Abrantes Gregório – AG | Engenharia e Avaliações
Data do fim de construção: 28/04/2021

ENTIDADE QUE APRESENTA A CANDIDATURA: Empresa: Balsas Abreu - Alojamento Turístico, Lda.
Morada: Rua de São Julião, 10
Localidade: Figueira da Foz
Código Postal: 3080-077
Telefone: 928118877
Site: https://bachareis.com/
APRESENTAÇÃO BREVE DA INTERVENÇÃO URBANA:

A Bacharéis Charming House resulta da reabilitação de uma casa construída em 1878, na Rua de São Julião, 10, para convertê-la num hotel de charme. Como ponto de partida, fez-se uma minuciosa pesquisa histórica sobre o imóvel e o acervo nele encontrado.

Dada a localização privilegiada e o rico período histórico da Figueira da Foz que atravessou, a casa conservou muitos testemunhos da sua própria história. O mais curioso foi o fato de ter pertencido, ininterruptamente, a quatro gerações de magistrados – os Pessoa da Silva Arnaut (meados de Oitocentos – 1873), os Fernandes das Neves e os Melo (1873 – 1908) e os Campos Paiva (1908 – 2017). Os primeiros eram donos do terreno; os segundos mandaram ali erigir a “caza”; os últimos fizeram dela a sua morada estival, e deixaram, esquecido no sótão, um baú repleto de documentos e publicações antigas.

Passados cento e quarenta anos desde a sua construção, com todas as transformações ocorridas na cidade, no edifício e na sociedade, o projeto de reabilitação guiou-se pela vontade de descobrir e contar essa história, como legado, ao mesmo tempo que quis devolver à casa a dignidade merecida.

 As mudanças necessárias foram assumidas como contrapontos contemporâneos, que evidenciam e dão protagonismo a pontos-chave da arquitetura original e ao acervo encontrado, incorporados à arquitetura de interiores. Assim, o projeto criou nove unidades de hospedagem (sete suites e dois apartamentos), recepção, salão, sala de estar e cozinha, fazendo as adequações ao novo uso, enquanto põe à vista recortes da história da casa em si e da vida de seus antigos moradores.

Se a descoberta que a casa pertenceu a várias famílias de advogados foi determinante na escolha do nome Bacharéis, o que dela se revelou, quer na dimensão construtiva, quer na dimensão humana, foi igualmente importante para o projeto.

Como a maioria dos edifícios urbanos da sua época, a casa de São Julião, 10, resume-se a uma caixa de pedra com estrutura interna de madeira maciça e taipa de tabique. Essa estrutura, a despeito da largura do edifício, cumpria de tal forma a função de sustentação, que as esbeltas paredes internas não possuíam quaisquer reforços estruturais mais robustos.

No decorrer dos trabalhos de verificação das condições de estabilidade e conservação da casa foi-se revelando a sua essência construtiva: visto que as paredes externas e a estrutura interna eram plenamente recuperáveis, ao pô-las à vista logo se entendeu que esta essência construtiva e as memórias de uma arquitetura doméstica do final do século XIX, por ela evocadas, tinham muito a contar.

Neste trabalho de desvendar o edifício, foi-se também revelando uma sutil e singela linguagem de ferramentas, de materiais, de ofícios e saberes. As marcas do talhe da enxó nas vigas de madeira das paredes de tabique registam o cuidado em dar melhor aderência à argamassa de cal que as revestia. Os jornais, cortados em recortes miúdos, que preenchiam as brechas da estrutura destas paredes, também dão notícia de uma solução vernacular e intuitiva. Visto isso, o que a princípio seria apenas um trabalho de sondagem e diagnóstico das condições físicas da edificação, acabou por proporcionar várias descobertas que vieram a ser determinantes no desenho do projeto.

A cobertura e o sótão originais não reuniam as condições mínimas para restauro, pelo que foram totalmente removidos. No corpo principal da casa, não havendo teto falso, o sótão tinha um forro inclinado de tábuas acomodadas diretamente sob o telhado. Foi no verso de uma dessas tábuas que se encontrou a inscrição da data de construção da casa: "1878. Foi esta caza feita / José Gonçalo [?] / Emigdio Lopes [?]".

O salão, pela sua ornamentação diferenciada e pelo seu caráter simbólico, como lugar de convívio dos antigos moradores, foi preservado na íntegra. Para além de ter o soalho, a porta, as portadas interiores, as guarnições de madeira e o teto de estafe restaurados, a parede de fundo recebeu um painel de azulejos que originalmente estavam aplicados na cozinha da casa.

Além do salão e das escadas, somente as paredes internas que os delimitam puderam ser mantidas. As demais divisões originais foram suprimidas e outras foram acrescentadas, resultando em espaços amplos, divididos com paredes de gesso cartonado, suportados pela nova estrutura de sustentação, que permitiu a preservação de boa parte dos pisos de madeira e libertou as paredes de taipa da função estrutural.

As paredes externas foram preservadas na íntegra, de forma que a caixa de pedra e a estrutura de madeira pudessem ser usadas como envelope para as novas divisões, num diálogo de épocas entre antigos e novos elementos construtivos, através da linguagem dos materiais.

Todo este projeto foi um exercício de concepção de uma nova narrativa arquitetônica para o edifício, onde o maior desafio foi conciliar o extenso vocabulário do que se preservou da construção original com os novos vocábulos arquitetónicos que surgiram das necessárias alterações.

MOTIVO DA CANDIDATURA:

A Figueira da Foz do último quartel do século XIX é uma Vila em transição: iniciando a sua expansão urbanística a poente com vista a dar resposta à crescente tendência da vilegiatura marítima, germinavam, simultaneamente, novas atitudes e sociabilidades condicentes com as renovadas funções do burgo. A Igreja Matriz continuava a afirmar-se como o eixo para a estratificação urbana e social, pelo que na vizinhança da Rua de São Julião pontuava o melhor da sociedade figueirense nos áureos anos de Oitocentos.

Coerente com política nacional de reabilitação urbana, o município da Figueira da Foz traz, no escopo da sua legislação urbana, a demarcação das Áreas de Reabilitação Urbana (ARUs), definindo ainda, para áreas de interesse especial, o Plano Estratégico de Reabilitação Urbana (PERU). A casa da Rua de São Julião, 10, situa-se cumulativamente dentro dos polígonos definidos para a ARU e o PERU do Centro. Trata-se, portanto, do núcleo histórico da cidade, do qual o edifício faz parte.

A partir da pesquisa histórica que o guiou e da sua forma de concepção, este projeto foi além da simples reabilitação do edifício, para unir e valorizar suas dimensões construtiva e histórica. Dessa maneira, recortes da história da casa, em constante diálogo com os contrapontos, fazem parte de uma mesma narrativa arquitetónica que resultou numa metáfora: a casa com um livro, a arquitetura como linguagem.

Da caixa de pedra, boa parte da face interior foi posta à vista, como testemunho da história da construção, assim como se restaurou a pia de pedra encastrada na parede da antiga cozinha. A estrutura de madeira das paredes de tabique foi revelada, deixando à mostra técnicas construtivas dos fins do século XIX.

Do outro lado do diálogo, estão os materiais contemporâneos: o betão à vista dos reforços das paredes de pedra, a caixilharia de alumínio e vidro, a madeira lamelada, o aço corten e o gesso cartonado. Este, além de compor as novas divisões, serve de suporte para que seja exposta parte do acervo, como as gravuras das antigas revistas, que personalizam o projeto como papel parede, cabeceira de cama e quadros decorativos. Nos tetos dos quartos seguem os contrapontos, com toda a trama estrutural deixada à vista: ora se veem vigas de madeira lamelada com placas de madeira resinada ou de cimento/madeira, ora se veem as vigas antigas, com a face inferior do soalho, deixando legível tanto a concepção original de sustentação dos pisos, como a da estrutura de reforço que a complementa.