Nome: RCRB86

Localização: Rua Capitão Renato Baptista nº86

Promotor / Dono de Obra: Urbanspace Investimentos Imobiliários Lda.

Arquiteto: Appleton e Domingos Arquitectos

Construtor: Tetrapod construção civil, lda

Financiamento: Banif

Data do fim de construção: 30/05/2011

Apresentação Breve da Intervenção Urbana: É cada vez mais importante a apresentação e a valorização de intervenções cuidadas mas com custo controlado sobre os edifícios correntes que representam a maior parte do tecido urbano construído e de cuja reabilitação dependerá a da própria cidade.

O projecto que se apresenta é um exemplo da reabilitação de um pequeno ‘gaioleiro’ idêntico a centenas de outros que existem em Lisboa.

O período que compreende o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX corresponde a uma expansão sem precedentes da cidade de Lisboa.

Nesse período, a tipologia construtiva dominante é o ‘gaioleiro’, edifício de rendimento frequentemente especulativo, com estruturas de madeira relativamente económicas, paredes perimetrais de alvenaria portante e com varandas de ferro e pavimentos de abobadilhas a tardoz.

O ‘gaioleiro’ é um edifício corrente muito importante no centro da cidade pois constitui uma grande percentagem do seu tecido construído. Quase nunca eruditos, sem valor histórico ou estético significativo, os ‘gaioleiros’ possuem apesar disso qualidades e carácter que justificam a sua manutenção.

Sem pretender constituir um paradigma esta intervenção é, no entanto, a demonstração da viabilidade da reabilitação destes edifícios aumentando o seu desempenho – ao nível das instalações, da segurança, do uso – preservando o seu carácter – no que respeita a revestimentos, acabamentos, soluções estruturais e construtivas, espacialidade – obtendo uma nova unidade – através de um olhar erudito sobre um edifício ‘vernacular’, olhar que partindo das soluções originais lhes confere uma nova coerência.

Neste caso houve também a preocupação de procurar soluções que permitissem atingir os objectivos definidos com um custo de obra controlado, o que implicou uma escolha criteriosa dos materiais e soluções. Esta objectivo estava relacionado com a pretensão de que os fogos pudessem ser comercializados por valores não especulativos.

As intervenções efectuadas nesta campanha de obras tiveram como objectivo:

a) Melhoria do desempenho do edifíco;

b) Manutenção do carácter do edifício;

c) Criação de uma nova unidade no edifício; A actualização do desempenho do edifício inclui muitos aspectos diferentes – a aproximação onde possível à legislação e regulamentação actuais, nomeadamente na acústica e na térmica; a introdução de modernas infraestruturas de águas, esgotos, electricidade, comunicações e gás; introdução de elevador, o redesenho das habitações integrando novas instalações sanitárias e cozinhas e criando tipologias adequadas à vida contemporânea, nomeadamente através da integração das cozinhas nas salas.

A manutenção do carácter do edifício passa pela preservação onde possível dos revestimentos e acabamentos existentes; pela preservação de elementos secundários como vãos interiores e exteriores, portadas, guardas; pela cuidadosa introdução de novos elementos sempre compatíveis com o existente, nomeadamente os elementos estruturais, os novos vãos, os novos revestimentos e acabamentos. A criação de uma nova unidade no edifício passa por agir como arquitecto, ou seja, respeitando e partindo do objecto existente, mas não prescindindo de uma intervenção global e coerente. A escolha e o desenho das soluções de projecto que são aplicadas de forma generalizada no edifício são baseadas nos existentes - os mosaicos de pó de pedra de padrão, os ‘estuques’ pétreos nas escadas e casas de banho, as novas varandas metálicas de desenho funcional e moderno, as caixilharias de ferro no piso inferior. Esta estratégia permite coser a intervenção actual ao edifício existente através da familiaridade e compatibilidade das soluções criando um objecto unitário e não uma soma de intervenções – as novas soluções complementam e valorizam as existentes.

Motivo da Candidatura: A reabilitação do edifício nº 78 a 86 da Rua Capitão Renato Baptista não é significativa pela dimensão da obra ou da intervenção. No entanto se encararmos este edifício como uma unidade exemplar de um conjunto que abrange grande parte da cidade de Lisboa, então a escala torna-se enorme.

Apesar de existir uma tendência, eminentemente política, que acredita que a reabilitação da cidade se fará através de mega-operações com grande escala e financiamento, é nossa convicção que o caminho é outro. A estrutura fundiária Lisboeta, a própria topografia, levam a que seja muito complicado criar grandes conjuntos que possam ser intervencionados globalmente. Assim, a tendência será para uma reabilitação da cidade feita de muitas intervenções de pequena escala, sem implicar grandes investimentos e financiamentos.

Por isso mesmo fazem falta em Lisboa intervenções cuidadas sobre edifícios correntes, mas intervenções baseadas no objecto. Intervenções que não são sobre monumentos nem sobre conjuntos monumentais, que não são sobre edifícios classificados, mas nas quais é posto o mesmo empenho que em edifícios especiais.

No caso do edifício da Rua Capitão Renato Baptista foi possível reabilitar o edifício aproximando-o do desempenho de um edifício moderno, preservando o seu carácter modesto mas cuidado de ‘gaioleiro’, criando uma nova coerência e unidade eventualmente mais interessante do que aquela que ele possuía.

Ao contrário do que acontece frequentemente o objecto resultante da intervenção é perfeitamente reconhecível como o original, tira proveito da diversidade e riqueza das soluções construtivas e espaciais, mas acrescenta-lhe novo valor não só pela melhor desempenho conseguido no que respeita às exigências do habitar contemporâneo, pelo potenciar de espaços preexistentes subaproveitados como os átrios dos apartamentos ou as varandas a tardoz, mas também pela riqueza espacial das novas tipologias de habitação que tiram partido de duplos pés-direitos, dos espaços exteriores, das vistas.

Acredita-se que este exemplo vem demonstrar não apenas a possibilidade da reabilitação destes edifícios correntes (pode-se mesmo dizer banais) mas principalmente a pertinência destas intervenções independentemente das questões ambientais e patrimoniais.

Em diversos aspectos, mas especialmente no que respeita à qualidade espacial e matérica, o resultado final pode ser tão ou mais interessante do que a obra nova pois estes edifícios possuem algo que nenhum arquitecto consegue criar instantaneamente e nenhum edifício novo consegue alcançar – Tempo.

 

Poster: